A adoção de adolescentes ainda enfrenta preconceito, mas este cenário está mudando


Domício Brasiliense adotou Anderson quando o jovem contava 17 anos de idadeLauro Alves / Agencia RBS

Em todo o Brasil, há menos de 5 mil crianças e adolescentes disponíveis para adoção. Na outra ponta da fila, quase 40 mil solteiros e casais estão cadastrados para adotar um filho. Apesar de o número de adultos dispostos a ter filhos não biológicos ser oito vezes maior do que o de jovens à espera de uma família, meninos e meninas podem aguardar anos em instituições de acolhimento sem uma chance de recomeçar a vida com novos laços afetivos.


Uma variável do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) explica boa parte desse descompasso: a idade. Mais de 90% dos jovens disponíveis para adoção têm mais de seis anos, e só 10% dos pretendentes cadastrados no CNA aceitam adotar alguém com esse perfil. Quando o assunto é adotar adolescentes, o número é ainda mais restrito: apenas 0,4% dos pretendentes estão abertos a receber um filho com mais de 12 anos, embora 61% dos jovens no CNA tenham esse perfil, somando mais de 3 mil adolescentes disponíveis para adoção.


Algumas iniciativas estão fazendo essa realidade mudar. A principal delas é o apadrinhamento afetivo, prática reconhecida por lei desde 22 de novembro de 2017 – a atividade era regulamentada pelo governo federal desde 1999, mas não constava no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Instituições abrem suas portas para que pessoas da comunidade conheçam crianças que estão fora do perfil mais procurado pelos pretendentes. Os padrinhos passam por cursos de formação e, com o estreitamento da ligação com os afilhados, podem realizar passeios fora das instituições de acolhimento e até curtir finais de semana juntos.


– A ideia do apadrinhamento não é conseguir um pai ou uma mãe para o jovem acolhido. O que procuramos é oferecer um laço de afeto dos jovens com alguém da comunidade, para que eles não tenham a vida social restrita à instituição – explica Camila Monteiro, do Abrigo João Paulo II. – O comportamento e o desempenho escolar melhoram muito quando a criança tem uma boa relação com o padrinho. É alguém de fora dando atenção para ela. Isso muda tudo.


Embora o objetivo do apadrinhamento não seja a adoção, muitos padrinhos se tornam também pais. O psicoterapeuta Domício Brasiliense passou por esse processo. Com um filho consanguíneo já adulto, ele tinha há muito tempo o desejo de ser pai adotivo. Quando soube que um amigo havia optado pelo apadrinhamento afetivo, a vontade se acendeu novamente. Depois de fazer as oficinas de apadrinhamento do João Paulo II, obrigatórias para a instituição, definiu o perfil de afilhado que desejava:


– Nunca imaginei adotar um bebê. Já tive essa experiência de ser pai de uma criança com o Tiago, hoje com 37 anos. Queria um menino mais velho, pois não tinha espaço na rotina para cuidar de um pequeno, e também por acreditar que poderia ser um bom orientador, no sentido de bater papo e viver junto.


O psicoterapeuta apadrinhou Anderson em setembro de 2016, quando o menino tinha 16 anos.


– O pessoal do abrigo me disse que nossos perfis batiam, e só então me mostraram uma foto dele. Quando vi a imagem foi algo muito forte. Nos primeiros encontros, acompanhados de psicóloga e assistente social, sentia que o Anderson tinha uma ansiedade positiva, mas também certo receio de ser rejeitado. Já eu tinha uma expectativa de querer ser aceito, aprovado – lembra Domício.


A convivência se estreitou e, em fevereiro de 2017, ele ganhou na Justiça a guarda de Anderson. A partir da assinatura de um juiz, tornou-se pai de um menino que já contava 17 anos de idade.


– Não esperava que alguém ainda quisesse me adotar. Estava na minha cabeça que eu teria que me cuidar. Tinha que focar, estudar, encontrar um trabalho e seguir a minha vida – diz Anderson.


Estudar e encontrar um trabalho seguem sendo prioridades do jovem, que fez curso de barbeiro, trabalha em uma empresa de comunicação social e, para o futuro, sonha com a carreira de cineasta.


– Meu pai são meus olhos. Antes, não tinha visão ampla de nada. Hoje, graças a ele, tenho. Com o apoio do meu pai, consigo sonhar e realizar meus objetivos – afirma o jovem.


O dia em que Domício ganhou a guarda de Anderson foi de comemoração, mas também teve uma ponta de tristeza. O menino foi recolher seus pertences no quarto da casa-lar em que morava. E o tempo de reunir tudo em uma mochila se estendeu por longos minutos. Ansioso com a partida, o novo pai foi ver se o filho precisava de ajuda. Encontrou o jovem na garagem, abraçado aos aos seus dois irmãos biológicos, de 16 e 17 anos, também moradores do local.


– Eles se abraçavam e choravam, pois estavam perdendo um irmão – emociona-se Domício. – Nós nos abraçamos, e eu disse que não perderíamos o convívio, que batalharíamos para seguirmos próximos. Naquele momento, decidi inconscientemente que daria um jeito de deixar todos juntos mais uma vez.


Atualmente Domício é padrinho dos dois. E logo deve se tornar também pai deles. O psicoterapeuta acredita que, nos próximos dias, deve ganhar a guarda dos irmãos. Para acomodar todos, construirá uma casa no bairro Agronomia, que também servirá para recepcionar jovens acolhidos e em processo de transição para adoção.


– Eu e Anderson somos voluntários no abrigo. Ele corta o cabelo dos meninos e já fala sobre a sua experiência de vida, que serve de exemplo. Muitos completam 18 anos e precisam sair da casa-lar, mas não estão preparados para isso. Nosso espaço poderá ajudá-los no futuro – explica Domício.

Domício, ao lado de Anderson, agora é padrinho dos irmãos biológicos do jovem. Ele espera também adotá-los em breveOmar Freitas / Agencia RBS


Desde os seis anos em situação de acolhimento, Anderson preserva não apenas a relação com os irmãos, mas também com funcionários do João Paulo II. Com frequência, Domício realiza churrascos com os "pais sociais" de Anderson – trabalhadores da casa-lar que são contratados para cuidar de grupos de 10 crianças. Para a psicóloga Bianca Sanchotene, do Grupo de Apoio a Pais Travessia do Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia (Iepp), a criança que tem acesso ao seu passado, por mais difícil que tenha sido, torna-se mais livre para construir seu futuro:


– A história da criança antes da adoção muitas vezes é ligada a traumas, porém, é preciso oferecer escuta para que ela possa elaborar e acomodar dentro de si o que diz respeito ao seu passado.


Além de não fecharem a conexão da criança ou do adolescente com sua história, é importante que os pais não idealizem o filho que está para chegar. Algumas vezes, pretendentes esperam uma gratidão que muitos filhos ainda não são capazes de oferecer, já que estão se adaptando a uma nova vida, distanciando-se de vínculos cultivados no abrigo, o que pode reavivar o sentimento de abandono em relação à família consanguínea.


– Quando pensamos em adoção, temos de entender que nossos filhos têm o direito de ser eles mesmos, não o que nós esperamos deles. Não podemos dizer que não temos expectativas, pois seria mentira. Criamos expectativas para tudo. Mas temos que aprender a nos frustrar com isso. Um filho não pode ser a idealização de um pai – diz Domício.


Para a psicóloga Bianca, a idealização é comum tanto para os filhos biológicos quanto para os adotivos:


– Os pais geralmente idealizam e esperam que seus filhos os superem, tenham sucesso e possam muitas vezes realizar aquilo que não conseguiram, pelas mais diversas razões. A criança confronta essas expectativas e mostra que, realizando algo diferente daquilo que foi imaginado (pelos pais), pode surpreender e encantar. Suas características próprias exigem empatia e tolerância.


As razões da morosidade


Depois que uma criança ingressa em uma casa de acolhimento, o poder público tenta reintegrá-la ao núcleo familiar ou a algum parente. Na ausência dessa possibilidade, é iniciado um processo de destituição de poder familiar, que pode ser seguido de uma habilitação para a adoção. Das 4.864 crianças em situação de acolhimento no Rio Grande do Sul, 1.322 têm a habilitação. A morosidade nesse processo faz com que muitas delas passem anos em instituições, apesar de a lei afirmar que esse prazo não poderia superar 120 dias. Quando finalmente ficam aptas para entrar em uma nova família, já saíram da idade ideal buscada pela maioria dos pretendentes.


O projeto de lei que reconheceu o apadrinhamento afetivo, aprovado em novembro, também estabeleceu prazo de até 120 dias para a tramitação dos processos de habilitação para adoção. A modificação deveria fazer a fila de adoções andar mais rápido.


– A lei avançou, mas a crítica que se faz é que, desde 2009, já estava no ECA que a destituição tem de tramitar em 120 dias, o que não é cumprido. Então, não adianta o Estatuto agora dizer que a habilitação também tem de rodar nesse prazo se a habilitação continuar demorando mais de um ano e a destituição se estender por três ou quatro anos. Precisamos fazer a lei funcionar – afirma a promotora de Justiça Cinara Vianna Dutra Braga.


Para ela, é a falta de aparelhamento que não deixa a lei ser observada:


– Cartório e equipe técnica não dão conta do trabalho por falta de funcionários. O Poder Judiciário tem a obrigação de aparelhar melhor esse sistema, pois essas crianças dependem de nós. Temos um único juizado tratando da matéria, com apenas um cartório.


Cinara também observa que a fila de adoções anda devagar por conta das restrições dos pretendentes:

– Temos uma cultura de adoção de crianças pequenas.


Os pais Anderson Luis e Joel Sidnei da Silva almoçam com o filho Alison, adotado aos 13 anos de idade Lauro Alves / Agencia RBS